A Inteligência Artificial vai substituir todos os empregos?

Automação de funções humanas no mercado levanta questionamentos se as máquinas vão dominar o mundo, mas especialistas lembram que há peculiaridades que a IA dificilmente suprirá nossas habilidades

Em fevereiro, Bill Gates, cofundador da Microsoft, afirmou que a Inteligência Artificial (IA) será responsável por reduzir significativamente o papel da humanidade em muitas tarefas tradicionais, como Medicina e Educação — e essa mudança pode ocorrer em menos de dez anos. A afirmação foi feita no programa ‘The Tonight Show’, do comediante norte-americano Jimmy Fallon, da rede NBC.

O bilionário descreveu um futuro não muito distante em que os humanos não serão mais necessários “para a maioria das coisas”, pois a tecnologia de IA tornará desnecessária a participação de profissionais em grande parte das atividades produtivas e intelectuais.

“Com a IA, na próxima década, isso [conhecimento de um grande médico ou um grande professor] se tornará gratuito, algo comum. Ótimos conselhos médicos, excelentes aulas particulares [ficarão disponíveis pela IA]”, opina Gates.

Um diálogo posterior com Arthur Brooks, célebre professor da Universidade de Harvard, evidenciou Gates em nova projeção: a transformação será rápida, profunda e inevitável. O empresário defende que o acesso a ferramentas de IA e BigData – grandes arranjos de dados complexos chegando em alta velocidade – não apenas transformará o mercado de trabalho, mas irá conduzir quase todos os aspectos da vida cotidiana, dos medicamentos a assistentes virtuais.

Para Neil Thomson, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, sigla em inglês), haverá uma automação significativa nos próximos anos, e grande parte dela poderá levar cerca de uma década, repetindo um ciclo comum a outras tecnologias que se espalharam pela humanidade.

A Inteligência Artificial conseguirá substituir todos os empregos de controle humano?

Com tecnologias de IA generativa, como o Chat GPT, criado no fim de 2022 para alterar a forma como muitas empresas operam, o que se vê hoje em dia são trabalhadores se perguntando quão seguros estão seus empregos. Embora a automação ofereça benefícios e crie oportunidades, muitos se preocupam com seu impacto na substituição de funções historicamente dependentes do intelecto humano.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de janeiro de 2024 indica que aproximadamente 40% dos empregos no mundo serão afetados pelo avanço da IA. Dessa parcela, metade será beneficiada com o uso da tecnologia e o aumento da produtividade. 

Para a outra metade, todavia, as ferramentas de IA e BigData vão executar tarefas hoje realizadas por humanos, o que pode reduzir a demanda de trabalho, levando a salários mais baixos e menos contratações. “Nos casos mais extremos, alguns desses empregos podem desaparecer”, reconhece o FMI em uma análise mais didática. 

40% dos empregos no mundo serão afetados pelo avanço da IA, diz estudo do FMI | Foto: Envato

Para Thomson, todavia, as ocupações em que o trabalho humano é vulnerável à substituição pela IA são menores do que se pensa. De acordo com estudo registrado pelo pesquisador no MIT, apenas uma de cada quatro tarefas com ampla compatibilidade técnica são economicamente atraentes para serem implementadas na atualidade. 

Trabalho humano não é totalmente descartável

De acordo com ele, resumidamente, um dos maiores obstáculos para substituir a força humana pela atual visão computacional em nível empresarial é o elevado custo do serviço. A professora Agma Machado Traina, que faz parte do corpo docente do MBA em IA e BigData da USP São Carlos, acrescenta que há características ainda extremamente dependentes de humanos para resultar em tarefas 100% eficazes nas empresas. 

Em áreas como atendimento ao cliente, análise de dados, e até mesmo em segmentos como medicina e educação, a IA pode ajudar a melhorar a eficiência e tomar decisões mais rápidas e precisas. Porém, há aspectos humanos que são, de fato, difíceis de replicar, como empatia, criatividade e julgamento ético.

Para Agma Machado Traina, da USP São Carlos, a IA não consegue substituir a humanidade por características peculiares | Foto: Arquivo Pessoal

“Nós não nos dispomos de uma tecnologia atualmente que substitua a perspicácia, a criatividade, a maleabilidade ou a flexibilidade de um ser humano na sua profissão. Por isso que, no meu ponto de vista, o melhor dos dois mundos é termos um profissional que conte com ferramentas de IA e de BigData ao seu dispor para, então, atuar com maior confiabilidade, com mais precisão, menos esforço e que seja mais produtivo”, acredita a professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC).

Neste momento, na visão de Solange Oliveira Rezende, colega de Agma no ICMC-USP e coordenadora do MBA, o que ocorre é um novo ciclo de adaptação a uma realidade produtiva tecnológica, onde o trabalho intelectual humano sofre o impacto dos benefícios da Inteligência Artificial e Big Data. 

“A automação é uma realidade, a crescente adoção de tecnologias mais inteligentes já é realidade e muitos cargos anteriormente ocupados somente por seres humanos agora podem ter um desempenho tão bom ou melhor por máquinas automatizadas. E se nós usarmos a IA como um copiloto para nossas ações, vamos aumentar a produtividade das pessoas e as condições de desenvolver nossas habilidades”, opina.

Solange vai além na discussão e vai na linha de Thomson: as pessoas não vão perder seus empregos para a IA, mas há ameaças de serem superadas por profissionais que dominem o uso da tecnologia.

“O ponto central é: o profissional não vai perder seu emprego para a IA, mas vai perder para outra pessoa que sabe e lida com IA. Ela surge como um recurso para melhorar o desempenho dos profissionais. Se você não está aberto a aprender novas possibilidades, novas tecnologias e trazer isso para seu dia a dia, corre o risco de perder seu emprego para outro profissional que sabe o mesmo que você, mas conhece e utiliza a IA”, encerra a cientista da computação.

Professora do ICMC, Solange Oliveira Rezende que profissionais que dominam a IA terão vantagens a curto prazo no mercado | Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de São Carlos

Conclusão 

Em vez de substituir todos os empregos, a IA provavelmente mudará a natureza de muitos deles, automatizando tarefas repetitivas ou baseadas em padrões e permitindo que as pessoas se concentrem em funções mais complexas e criativas. Além disso, à medida que novas tecnologias surgem, novos tipos de empregos podem ser criados, exigindo habilidades diferentes.

A chave, então, será a requalificação dos profissionais mais capacitados para lidar com tais ferramentas no seu dia a dia. Ao integrar a IA ao desenvolvimento profissional, a sociedade pode não apenas enfrentar desafios futuros, mas abre-se uma estrada para a colaboração entre humanos e técnicas de Inteligência Artificial e Big Data como base de uma força de trabalho mais adaptável e preparada para os avanços por vir.

Texto: Matheus Martins Fontes, da Fontes Comunicação Científica

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