“Eu queria ser cientista. Essa ideia de ser tipo o Professor Pardal: inventar coisas e fazer com que algo difícil se tornasse fácil!”. Assim como o personagem dos estúdios Disney, conhecido por sua criatividade e capacidade de transformar desafios em soluções, Dilvan de Abreu Moreira cultivou desde cedo a curiosidade pela ciência. O desejo de criar, descobrir e esmiuçar o conhecimento foi o ponto de partida de sua trajetória. Hoje, com mais de 20 anos de atuação como pesquisador e professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, Dilvan integra o corpo docente do MBA em Inteligência Artificial e Big Data.
O mais velho de quatro irmãos, Dilvan é natural da capital baiana, Salvador. Berço histórico do país, a cidade é reconhecida como expoente de cultura, paisagens naturais e, claro, carnaval – celebração que ecoa na memória de Dilvan desde a infância. “Todos os anos, quando eu era criança, meus pais me levavam. Depois, quando cresci, continuei indo. Mas, no período do doutorado, consegui voltar apenas uma vez para o carnaval”, relembra.
Os primeiros passos
O pai de Dilvan era sargento da aeronáutica e sua mãe, policial civil. O pesquisador conta que a educação sempre foi uma prioridade em seu núcleo familiar: “Minha mãe fazia questão de que estudássemos em escolas boas, então conseguimos fazer pelo menos o primeiro grau em escola particular. No segundo grau, eu fui para a escola pública, que oferecia ensino técnico. Lá eu fiz o curso de eletrônica”.
Após se formar na Escola Técnica Federal da Bahia (ETFBA), prestou vestibular para a Universidade Federal da Bahia (UFBA), sendo aprovado no curso de Engenharia Elétrica. “Durante a graduação, comecei a me interessar por pesquisa. Acabei trabalhando com microeletrônica”, conta o docente.

Foi também nessa época que Dilvan teve o primeiro contato com a inteligência artificial. Ao tentar resolver um problema de eletrônica que considerava mal representado por um modelo linear, passou a utilizar o computador para manipular simbolicamente equações complexas. A experiência ganhou novo impulso quando um professor lhe apresentou a linguagem Lisp. Tradicionalmente associada à IA, a linguagem acabou despertando o interesse pelo uso de computadores para reproduzir processos de raciocínio e resolução de problemas.
Da Unicamp à Universidade de Kent
Em 1988, o pesquisador partiu rumo à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, para cursar o mestrado em Eletrônica, onde desenvolveu um Simulador para Circuitos Analógicos. Nessa época, buscou uma experiência de estudo no exterior: “Durante o mestrado na Unicamp, entrei em contato com várias universidades, fiz vários pedidos e fui aceito na Universidade de Kent, em Canterbury, na Inglaterra”. Em seu doutorado na instituição inglesa, desenvolveu um gerador de layout que usava agentes de software para criar máscaras para circuitos integrados – os chips.
Durante o período em território estrangeiro, uma das atividades às quais Dilvan dedicava seu tempo livre era a fotografia. Ainda no método analógico, o pesquisador fazia os cliques utilizando uma câmera Canon e filmes fotográficos. Mesmo com a popularização das câmeras digitais e dos smartphones nos dias atuais, ele acredita que a experiência quase artesanal desse tipo de fotografia rende uma estética singular: “Existia uma espécie de alquimia ali, sabe? Tem coisas que você consegue fazer com filme fotográfico que são diferentes da fotografia digital”.

No início dos anos 1990, já de volta ao Brasil após concluir o doutorado, Dilvan reingressou na Unicamp como pesquisador. Foi nesse período que surgiu a oportunidade de prestar concurso para a área de Computação. Embora sua formação fosse em Engenharia Eletrônica, sua trajetória acadêmica já era fortemente marcada pelo desenvolvimento de software e pelo uso da computação. “Resolvi fazer o concurso, passei e comecei a trabalhar na área”, rememora.
A mudança consolidou uma aproximação que vinha desde os primeiros contatos com o universo da IA. “Eu sempre gostei dessa área. Meu gerador de layout já era uma aplicação de inteligência artificial”, afirma. Nos anos seguintes, seus interesses de pesquisa se expandiram para a Web Semântica, área que combina tecnologias da internet com conceitos clássicos da IA, como regras, representação do conhecimento e ontologias.

Mas não foi apenas sua carreira que ganhou novos rumos naquele período em Campinas. Em meio às pesquisas, aulas e projetos, um encontro inesperado na rodoviária da cidade mudaria também sua vida pessoal. “Ela estava indo para um lugar e eu para outro. Nós dois tínhamos chegado cedo para os nossos ônibus, então ficamos conversando”, relembra. A conversa casual deu início a uma história que atravessaria décadas. Foi assim que Dilvan conheceu a esposa Patrícia, com quem compartilha a vida até hoje e que o acompanharia em etapas importantes de sua trajetória acadêmica, como o pós-doutorado nos Estados Unidos.
Próxima parada: Universidade de Stanford
Por volta de 2005, Dilvan iniciou sua busca por uma oportunidade de pós-doutorado. O destino escolhido foi a Universidade de Stanford, localizada no Vale do Silício, nos Estados Unidos, um dos principais polos mundiais de inovação tecnológica. “Comecei a procurar e encontrei uma oportunidade em um dos melhores grupos de Web Semântica do mundo. Eles tinham desenvolvido o Protégé, que ainda é o editor de ontologias mais usado no mundo. Era tudo em Java, e eu tinha facilidade com essa linguagem”, relembra.

Ao chegar à instituição, no entanto, encontrou uma realidade que o surpreendeu positivamente. “Descobri que o grupo de pesquisa não era da Computação, mas da Medicina. As aplicações de inteligência artificial eram todas voltadas para a área médica. E eu gostei muito”, conta. A experiência ampliou significativamente sua visão sobre as possibilidades da IA. Trabalhando junto a médicos, pesquisadores e profissionais da saúde, Dilvan passou a explorar aplicações capazes de apoiar diagnósticos, organizar conhecimento especializado e auxiliar processos de tomada de decisão.
A colaboração construída durante o pós-doutorado se estendeu por muitos anos após seu retorno ao Brasil. Além da parceria de longa data com Stanford, o pesquisador passou a atuar em projetos interdisciplinares do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Hospital Sírio-Libanês e do INRAE’s Occitanie-Montpellier Centre.

Foi também no período nos Estados Unidos que aconteceu um dos momentos mais marcantes de sua vida pessoal: o nascimento de seu filho mais velho, Andrew, que tem 19 anos e atualmente cursa Ciência de Dados no ICMC-USP. “Ele nasceu dentro da Universidade de Stanford mesmo, no Lucile Packard Children’s Hospital”, conta. Junto de sua esposa, Dilvan também tem Olívia, a filha caçula, de 14 anos.
A atuação no MBA
Atualmente, Dilvan integra o corpo docente do MBA em Inteligência Artificial e Big Data com foco em ajudar profissionais de diferentes formações a ingressarem no universo da programação e da ciência de dados. “O curso que eu ministro é voltado para pessoas que entram no MBA sem nenhum conhecimento de computação”, explica. Para facilitar essa transição, os alunos participam de uma preparação antes mesmo do início oficial das aulas: “O MBA recebe esses alunos e, cerca de um mês antes do início das aulas, fazemos um curso introdutório de Python.”
Além das disciplinas, Dilvan também atua na orientação de projetos finais, especialmente aqueles ligados à área da saúde, um campo com o qual mantém forte conexão desde o pós-doutorado em Stanford. “Eventualmente também oriento os alunos nos trabalhos. Geralmente pego alunos que querem trabalhar na área médica. Mesmo que eles usem aprendizado de máquina, reconhecimento de padrões ou outras técnicas, se o projeto for da área médica, eu tento acompanhar”, afirma.
Segundo ele, um dos principais fatores para o sucesso de um projeto na área está na qualidade dos dados utilizados. “Também ajudo a encontrar esses dados, porque a coisa mais importante é ter um bom conjunto de dados”, conclui.

