Da zona rural ao ensino de IA: conheça o professor Renato Moraes Silva, que ensina máquinas a reconhecer fake news

Primeiro da família a concluir o ensino superior, o professor do MBA em IA e Big Data da USP investiga como a inteligência artificial interpreta textos e ajuda a enfrentar desafios digitais contemporâneos

Viver afastado da cidade, lidar com a criação de gado, montar a cavalo e enfrentar a rotina da fazenda contrastam bastante com a vida que o professor Renato Moraes Silva, do MBA em IA e Big Data da USP, leva hoje em São Carlos. Em uma cidade que respira inovação tecnológica, o docente ensina máquinas a identificar, entre outras coisas, fake news, um dos fenômenos mais desafiadores da era digital.

A distância entre esses dois mundos começa a se encurtar quando ele conta a própria trajetória. Nascido em Ituiutaba, no interior de Minas Gerais, Renato foi ainda bebê para uma fazenda no sul de Mato Grosso, onde viveu até o fim da adolescência. Os anos no campo incluíam acordar cedo, trabalhar próximo aos animais, estudar em uma escola comunitária e pedalar quilômetros até chegar à sala de aula de uma ONG. Graças à Operação Mato Grosso, organização cristã que oferecia ensino gratuito, o docente teve acesso à educação básica e, mais tarde, no ensino médio, estudou em um sistema de internato. 

“Na época, a única escola na região rural onde eu morava era administrada por uma ONG e, sem esse apoio, eu e meus irmãos não teríamos a chance de estudar. Depois, no ensino médio, não havia escola nas proximidades e a alternativa foi ir para outra região e estudar em um internato mantido pela mesma ONG”, afirma o professor.

Além de ser grato pelo ensino que recebeu, Renato afirma que o período no internato reforçou valores como a disciplina, ao conviver com regras que ajudaram a moldá-lo como pessoa.

“Lá tinha horário para acordar, fila para entrar na sala de aula e silêncio absoluto até a permissão do professor. Havia regras mesmo nos momentos de lazer. Se eu estivesse jogando futebol e o sino tocasse às seis da tarde, todos tinham de parar imediatamente e fazer um minuto de silêncio. Essa disciplina me segue até hoje e é algo que me ajuda muito na vida profissional”, lembra.

Também nesse período, ele deu as primeiras aulas, ainda adolescente, como catequista para crianças da comunidade. À medida que crescia, a educação ia se impondo como caminho possível e desejo pessoal.

Renato (de chapéu vermelho) e os irmãos frequentavam uma escola administrada por uma ONG, localizada a 4 km de onde residiam | Imagem: Arquivo pessoal 

Primeiro da família na universidade

Além da ONG Operação Mato Grosso, a família também teve papel central na trajetória do professor Renato. As memórias de infância em Rondonópolis ao lado dos dois irmãos Leandro e Bruno são recheadas de carinhos. “Meu pai atrasou o estudo do meu irmão mais velho para que eu pudesse ir junto para a escola, íamos de bicicleta. Crescemos muito unidos”, lembra.

Mesmo tendo facilidade com todas as disciplinas, a área de exatas chamava mais atenção. Ainda assim, a informática não fazia parte do cotidiano de quem vivia entre pastagens. “Até entrar na faculdade, eu nunca tinha usado um computador”, conta. Quando terminou o ensino médio, ele acabou optando pelo curso que mais lhe agradava na Universidade Federal do Mato Grosso, o de Licenciatura em Informática.

“Não tinha muitas opções, a maioria dos cursos eram de licenciatura, para formar professores”, conta.

Foi somente depois, que Renato aprendeu que seu curso também buscava formar professores, o que contrastava com  escolas que, na prática, não tinham laboratórios de Informática.

Apesar de terem escolaridade incompleta, os pais, David e Maria, sempre incentivaram os filhos a estudar | Imagem: Arquivo pessoal 

Mesmo assim, após concluir a graduação, Renato chegou a trabalhar em uma escola de cursos profissionalizantes em Rondonópolis, dando aulas básicas de informática, como Excel e Word. Mas após um ano afastado da universidade, uma inquietação começou a crescer. “Eu sempre gostei muito de estudar. Quando eu era criança, eu subia no pé de goiabeira com um livro e ficava lá lendo”, conta.

“Tenho muita gratidão pela professora Tatiana Pazeto. Sem ela, eu provavelmente não estaria aqui como professor da USP”, ressalta o docente do MBA em IA e Big Data | Imagem: Arquivo pessoal

A virada veio por influência da professora Tatiana Annoni Pazeto, orientadora de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na UFMT. Ela foi a primeira a enxergar o potencial acadêmico de Renato e insistir para que ele tentasse a pós-graduação. Segundo ele, Tatiana não apenas indicou o caminho, mas ajudou concretamente no processo. “Ela era extremamente solícita, me explicou como funcionava o mestrado e até me levou para conhecer Campinas quando eu passei para a Unicamp”, recorda.

O incentivo vinha de um primoroso histórico escolar, quando Renato recebeu o Prêmio Estudante de Destaque da Graduação da Sociedade Brasileira de Computação (SBC). “Ela via que eu tinha potencial, que eu tinha capacidade de fazer mais. Eu estava meio perdido e ela meio que me empurrou para frente”, comenta.

Foi já na Unicamp que ele conheceu o campo que guiaria sua trajetória dali em diante: o processamento de linguagem natural (PLN), área da inteligência artificial dedicada a interpretar textos produzidos por humanos. A partir daí, o mineiro criado em fazenda mato-grossense passou a investigar como algoritmos podem identificar sinais linguísticos que funcionam como pistas de desinformação. Segundo ele, a IA consegue captar padrões que, à primeira vista, passam despercebidos pelo leitor comum, como:

  • Uso excessivo de palavras que buscam tornar o discurso mais enfático e apelativo;
  • Maior frequência de erros ortográficos do que em textos noticiosos profissionais;
  • Inconsistências no estilo de escrita e na forma de construção das frases ao longo do texto. 

Esses traços, combinados entre si, ajudam modelos computacionais a diferenciar uma notícia legítima de uma construção manipulada. De acordo com o docente, que hoje integra o Centro de Inteligência Artificial (C4AI), em grandes eventos de interesse público, como eleições, cresce não só o volume de fake news, mas a complexidade dos mecanismos de persuasão utilizados por produtores de conteúdo mal-intencionado.

Renato ao lado do supervisor de pós-doutorado, professor Tiago Almeida, durante a premiação do Brazilian Knowledge Discovery in Databases, em Uberlândia, onde a equipe conquistou o segundo lugar em 2017 | Imagem: Arquivo pessoal

Mercado, indústria e aplicações reais

De acordo com o professor, atuar como docente em uma faculdade privada em Sorocaba, após  o pós-doutorado, permitiu que ele se aproximasse do setor produtivo e estivesse em contato direto com gestores, engenheiros e empresas interessadas em soluções concretas para problemas reais. “Essa vivência foi importante porque muitos acadêmicos têm uma bagagem técnica forte, mas pouca experiência com o mercado. Eu fui entendendo que IA não é só pesquisa. É ferramenta, produto e estratégia”, afirma.

Hoje, como docente do MBA em IA e Big Data, Renato direciona seu trabalho principalmente para o processamento de linguagem natural, mas também atua em visão computacional e problemas multivariados. A diversidade de interesse se reflete nos orientandos.

“Neste semestre, por exemplo, eu oriento um aluno que é advogado. A inteligência artificial não pertence a uma única área. Medicina, direito, contabilidade, indústria. Todas vão precisar aprender a lidar com essas ferramentas”.

Para ele, o impacto da IA será semelhante ao da calculadora: “No futuro, todo profissional vai ter que saber, no mínimo, usar IA. Não só quem é da computação. É como uma calculadora: você não precisa saber construir uma, mas precisa saber usar”.

O professor Renato Moraes Silva, a esposa e a enteada, que ele considera sua filha. “Crio ela desde os 10 anos”, declara. | Imagem: Arquivo pessoal

Fora da sala de aula

Além da dedicação ao ensino e às pesquisas, Renato gosta de jogar futebol semanalmente e acompanhar os jogo do Flamengo, seu time do coração. Casado, ele também aprecia assistir filmes e séries com a esposa Simone, com quem tem uma história de amor e resiliência.

“Nos conhecemos em Rondonópolis e, após seis meses, eu me mudei para cursar o mestrado em Campinas. Prometi a ela que ‘voltaria logo’ quando concluísse o curso, mas acabei seguindo para o doutorado”, lembra. 

Depois do doutorado, veio ainda o pós-doutorado, o que adiou o reencontro definitivo por mais tempo. Enquanto Renato avançava na carreira acadêmica, o casal manteve o relacionamento à distância de 2011 até 2018. A virada aconteceu quando ele estava no segundo ano de pós-doutorado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Simone decidiu se mudar para morar com ele. Em 2025, quando Renato já tinha assumido como docente da USP, eles oficializaram o casamento.

Por: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica