Depois de um ciclo marcado pela explosão das ferramentas generativas, a inteligência artificial entra, em 2026, em uma nova fase. Especialistas do setor e grandes empresas de tecnologia apontam que a IA deixa de ser experimental para se consolidar como infraestrutura crítica de negócios, com impactos profundos na economia, no mercado de trabalho e na sociedade.
Um estudo da empresa de pesquisa de mercado e consultoria IDC (International Data Corporation) aponta que o mercado de inteligência artificial deve ultrapassar US$ 300 bilhões (R$ 1,65 trilhão na cotação atual) em 2026, impulsionado principalmente pela disseminação dos agentes autônomos, pela personalização de modelos e pela crescente necessidade de governança, segurança e eficiência energética.
Para a professora Solange Oliveira Rezende, coordenadora do MBA em Inteligência Artificial e Big Data do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, o próximo ano marca uma mudança estrutural na forma como a tecnologia é concebida e utilizada. “Não estamos mais falando de experimentação ou curiosidade tecnológica. A IA passa a ser integrada aos processos centrais das organizações”, afirma ela, que ministra quatro disciplinas no curso de pós-graduação.
Prompts como nova linguagem de programação
Uma das tendências mais visíveis para 2026 é a consolidação dos prompts como uma nova forma de linguagem de programação. Se nos últimos anos o foco esteve no uso básico de ferramentas generativas, o próximo passo é a sofisticação na forma de interagir com os modelos.
Segundo Solange, a engenharia de prompt ganha um papel estratégico. “Uma das tendências para 2026 são os prompts se tornarem uma linguagem de programação. As pessoas passam a investir muito mais em geração e construção de prompts que façam exatamente o que deve ser feito”, explica.

Para a pesquisadora, essa mudança cria uma nova camada de competência técnica, aproximando o uso da IA de práticas tradicionais de desenvolvimento de software.
Sistemas multiagentes e modelos mais sofisticados
Após o avanço dos copilotos em 2024 e da automação ampliada em 2025, o próximo ano deve marcar a disseminação dos sistemas multiagentes. Esses agentes são capazes de executar tarefas de ponta a ponta, interagir com ferramentas, tomar decisões com base em regras e revisar a própria performance.
A coordenadora do MBA destaca que essa evolução está conectada a abordagens mais avançadas da área. “Outra tendência que seguirá forte para 2026 é a construção dos sistemas multiagentes, inclusive em abordagens neurossimbólicas, com modelos mais sofisticados e emergentes”, afirma.
Na prática, esses agentes devem transformar áreas como atendimento ao cliente, logística, auditoria, compliance, análise de dados e desenvolvimento de software, reorganizando fluxos operacionais e liberando profissionais para atividades mais estratégicas.
Tendências projetadas pela Microsoft reforçam a IA colaborativa
As tendências projetadas pela Microsoft para 2026 ajudam a consolidar o cenário de maturidade da inteligência artificial e reforçam um ponto central: os maiores ganhos da tecnologia surgem quando pessoas e sistemas inteligentes atuam de forma integrada.
No ambiente de trabalho, a empresa projeta que agentes de IA passem a atuar como verdadeiros colegas digitais, apoiando equipes menores a alcançar resultados mais expressivos. Essa leitura dialoga diretamente com a avaliação da professora Solange sobre a evolução dos sistemas inteligentes dentro das organizações. “Não estamos mais falando de experimentação ou curiosidade tecnológica. A IA passa a ser integrada aos processos centrais das organizações”, afirma a coordenadora do MBA.

A Microsoft também destaca a segurança como eixo estruturante dessa nova fase. Com agentes cada vez mais autônomos, torna-se essencial definir limites claros de acesso a dados e sistemas, incorporando governança desde o desenho das soluções de IA — um desafio que acompanha a internalização da tecnologia nas empresas.
Na área da saúde, as projeções indicam avanços no uso da inteligência artificial para triagem de sintomas, planejamento de tratamentos e apoio à decisão clínica, consolidando a tecnologia como parceira cotidiana de profissionais altamente especializados.
Já no campo da descoberta científica, a expectativa é que a IA deixe de atuar apenas como ferramenta de apoio e passe a participar ativamente do processo de descoberta em áreas como física, química e biologia. Esse movimento exige modelos mais robustos e sofisticados, alinhados ao que Solange aponta como a evolução natural da área. “A construção de sistemas cada vez mais avançados é uma tendência clara para os próximos anos”, observa a pesquisadora, ao destacar o avanço dos sistemas multiagentes e de novas abordagens em IA.
Para desenvolvedores, a inteligência artificial tende a se consolidar como pilar central na construção e manutenção de softwares, compreendendo alterações no código, sugerindo melhorias, identificando falhas e automatizando correções.
Por fim, a Microsoft aponta que 2026 marcará o avanço de infraestruturas globais e flexíveis de IA, capazes de reduzir custos e aumentar a eficiência computacional. Essa tendência se conecta à visão da coordenadora do MBA ao destacar o papel estratégico da infraestrutura e o potencial da computação híbrida, que combina aprendizado de máquina, supercomputação e computação quântica.

Um futuro definido por escolhas humanas
As tendências para 2026 indicam que a inteligência artificial está cada vez mais integrada à vida econômica, científica e social. Agentes autônomos, modelos colaborativos, novas infraestruturas e a chamada IA invisível redefinem processos, profissões e formas de produzir conhecimento.
Nesse contexto, o desafio central deixa de ser apenas tecnológico. O futuro da inteligência artificial será definido, sobretudo, pelas escolhas humanas — pela forma como a tecnologia é projetada, governada e utilizada para gerar impacto positivo na sociedade.
Matéria: Matheus Martins Fontes, da Fontes Comunicação Científica
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