É comum que, ao revisitar as páginas da própria história, nos retalhos da infância surjam lembranças que apontam para os caminhos imaginados para o futuro e vividos no presente. No fim dos anos 1990, em meio ao console de teclas plásticas e aos disquetes coloridos do nostálgico videogame MSX, Lucas Pascotti Valem resgata suas primeiras memórias relacionadas à computação. Hoje, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP e integrante do corpo docente do MBA em Inteligência Artificial e Big Data, o pesquisador construiu sua carreira no campo da visão computacional.
Natural de Araras, no interior de São Paulo, Lucas Pascotti Valem conta que, além do videogame, seu contato com o universo dos computadores foi influenciado pelo contexto familiar, já que seu pai trabalhava com manutenção de eletrônicos e computadores. “Ele fez um curso de eletrônica por correspondência e trabalhava com manutenção de computadores. Desde muito pequeno, eu já tinha contato com esse universo. Sempre tive esse interesse fomentado pelo meu pai. Ele chegou a ter uma loja com meu tio, que hoje já não existe mais”, relembra.

Até o ensino fundamental, Lucas estudou em sua cidade natal. No ensino médio, passou a ser bolsista em uma escola particular, o Colégio Koelle, em Rio Claro, na cidade vizinha. A mudança trouxe novos desafios, especialmente em Matemática. “Quando mudei de colégio, senti bastante essa transição. Até então, eu ia muito bem, mas minha primeira nota na escola nova foi dois. Aquilo me marcou porque eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Então comecei a estudar mais, consegui superar essa dificuldade e passei da nota dois para oito e, depois, para dez. Foi um momento importante para perceber que, na vida, muitas conquistas exigem dedicação, esforço e adaptação”, conta.
A primeira experiência lecionando
O tempo passou e o que antes era uma dificuldade se tornou um diferencial em seu caminho: Lucas foi convidado para dar monitorias de Matemática no colégio, auxiliando colegas que tinham dúvidas em determinados assuntos. Ele conta que as primeiras experiências em frente à lousa vieram atravessadas por certo nervosismo, que o fazia travar, mesmo dominando o conteúdo.
“Foi nesse momento que percebi que, muitas vezes, não damos o devido valor à preparação necessária para falar em público ou ministrar uma aula. Quando estamos apenas assistindo, pode parecer algo simples. A partir disso, passei a me preparar melhor, não apenas em relação ao conteúdo, mas também à forma como eu iria apresentá-lo”, relata o pesquisador.
E foi lapidando suas habilidades de comunicação no cotidiano das monitorias que Lucas deu os primeiros passos no que seria parte de sua profissão no futuro: “As minhas monitorias começaram a crescer. De duas pessoas, passaram a vir dez, quinze. E eu comecei a ficar muito satisfeito, muito motivado com essa coisa de ensinar. Era legal porque era um desafio superado, tanto a Matemática, naquele ponto, quanto o ensino”.

Em 2013, ingressou no curso de Ciência da Computação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Rio Claro. A entrada para a faculdade foi motivo de alegria na família, especialmente por ser em uma universidade pública: “Para eles, isso era algo muito importante e bastante difícil de alcançar”.
Ainda no primeiro ano da graduação, passou a integrar um projeto de extensão voltado ao ensino de informática para pessoas da terceira idade. Lucas atuava como monitor e gostava da atividade, embora ainda não considerasse seguir a carreira docente. “Eu me lembro de um momento, nesse primeiro ano, em que estava na biblioteca e pensei: ‘Será que é isso mesmo que eu quero fazer?’. Eu ainda estava tentando entender melhor meu caminho profissional e, às vezes, ficava desmotivado”, relembra.
Foi nesse período que um encontro na biblioteca mudou sua perspectiva. Em uma dessas ocasiões, um senhor que participava das aulas de informática o procurou para conferir se as anotações feitas durante a atividade estavam corretas. Ao se dirigir a Lucas, chamou-o de professor.
Lucas conta que gostava de dar aulas, mas ainda estranhava ser chamado assim. “Na minha cabeça, eu pensava que seria um grande programador em alguma empresa. Na época, tinha apenas 18 anos”, recorda. Após revisar as anotações, o senhor, que havia sido professor por toda a vida, fez um comentário que marcou Lucas. A partir da própria experiência na educação, disse que conseguia perceber nele uma vocação para o ensino: “Você é muito novo ainda, mas eu já tenho muita vivência. Eu vejo um professor em você. Talvez hoje você ainda não pense nisso, mas acredito que um dia pode seguir por esse caminho”.

Os primeiros passos na pesquisa
Depois das experiências com a monitoria, Lucas iniciou uma iniciação científica que despertou o interesse pela pesquisa: visão computacional, campo da Ciência da Computação dedicado ao desenvolvimento de técnicas para que computadores interpretem e analisem imagens.
Concluída a graduação, permaneceu na Unesp de Rio Claro para o mestrado e doutorado, sob orientação do professor Daniel Carlos Guimarães Pedronette, que já o acompanhava desde a iniciação científica. Embora já estivesse envolvido com pesquisa, ainda avaliava qual caminho seguir profissionalmente: a carreira acadêmica ou o mercado de tecnologia.
Foi seu orientador quem o incentivou a prosseguir. Durante a transição para o doutorado, apresentou-lhe a proposta de integrar um projeto financiado pela Petrobras dentro da universidade, com contratação em regime CLT. A oportunidade pesou em sua decisão: “Além de representar uma experiência profissional concreta, eu poderia continuar meus estudos e desenvolver o doutorado enquanto atuava no projeto”.
Em seu doutorado, Lucas desenvolveu pesquisas que aplicavam técnicas de reidentificação de pessoas e de segurança do trabalho a problemas de interesse científico. Com a chegada da pandemia de Covid-19, o projeto financiado pela Petrobras teve sua dinâmica de execução reorganizada, sendo posteriormente concluído em 2022.
Ao longo dessa trajetória, também vieram reconhecimentos importantes, como premiações relacionadas à sua pesquisa de mestrado e a aprovação em oportunidades acadêmicas competitivas. Entre elas, destaca-se a bolsa Fulbright, financiada pelo governo dos Estados Unidos, que viabilizou a realização de um estágio de pesquisa na Temple University, na Filadélfia, por cerca de dez meses.

“Conheci pessoas de muitos países diferentes, com culturas e vivências muito distintas. Isso contribuiu muito para a minha formação e ampliou bastante a minha visão de mundo”, afirma.
Nesse período, também retomou um hobby iniciado na pandemia e que mantém até hoje: tocar teclado e piano. Na universidade, havia um departamento de música aberto aos estudantes, com salas equipadas para a prática de instrumentos, espaço que ele passou a frequentar e que era uma forma de pausa e equilíbrio na rotina acadêmica.
“Você entrava lá e encontrava várias salas preparadas para a prática de instrumentos e equipadas com diversos pianos, inclusive acústicos, não apenas digitais. Eu pensava: ‘Poxa, que oportunidade’. Então, sempre que possível, aproveitava para praticar um pouco. Em períodos mais intensos da rotina acadêmica, tocar acabava sendo uma forma de fazer uma pausa e aliviar a pressão”, recorda. A música segue presente em sua rotina e divide espaço, nos momentos de lazer, com os videogames, gosto cultivado desde a infância.
A volta ao Brasil
Ao retornar ao Brasil, Lucas conciliou a reta final do doutorado com a atuação em um novo projeto de pesquisa financiado pela Petrobras. Dessa vez, o trabalho era voltado ao desenvolvimento de técnicas de visão computacional para o reconhecimento de microfósseis, pesquisa na qual atuou como líder técnico.
Concluído o doutorado, veio um novo desafio: a preparação para os concursos públicos para docente. Inscreveu-se para vagas na USP, em São Paulo, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, onde foi aprovado em dezembro de 2024.

Ao olhar para a própria trajetória, Lucas identifica uma linha que conecta suas primeiras experiências aos dias atuais: “Vejo tudo isso como resultado, dentre outras coisas, do interesse pelo ensino, que surgiu ainda na minha primeira monitoria; da motivação que encontrei ao trabalhar com os idosos; e também da vontade de descobrir coisas novas desde a iniciação científica. Hoje, sou muito feliz na minha profissão, porque consigo conciliar a descoberta proporcionada pela pesquisa com a possibilidade de oferecer aos alunos experiências semelhantes às que tive. Sou muito grato por toda essa trajetória e pelas oportunidades que contribuíram para a minha formação”.
O MBA
Na graduação do ICMC, Lucas iniciou sua atuação ministrando a disciplina de Introdução à Computação, responsável por apresentar os fundamentos da programação a estudantes de diferentes cursos. Com o objetivo de apoiar o aprendizado dos alunos, passou também a gravar pequenas videoaulas de revisão, complementando o conteúdo trabalhado em sala. Essa experiência, somada à sua participação em projetos de pesquisa com forte interface com a indústria, abriu caminho para sua integração ao corpo docente do MBA.
Inicialmente, passou a atuar no módulo de Fundamentos de Programação, no qual apresenta a linguagem Python a profissionais que, muitas vezes, nunca haviam programado antes. “Além disso, acredito que minha experiência em projetos com a Petrobras e o contato constante com demandas do mercado também contribuíram para que vissem valor na minha participação. Então, foi uma combinação desses e outros fatores que resultou no convite”.
Para Lucas, um dos grandes diferenciais do MBA está justamente na proximidade entre universidade e setor produtivo. “Existe um esforço genuíno para compreender os desafios reais que os alunos trazem das empresas e conectá-los ao conhecimento produzido na academia. Essa aproximação desperta interesse dos dois lados”, conclui.


