IA brasileira ganha força com chatbots próprios e aponta caminhos para soberania digital

Com modelos treinados em português e voltados à realidade nacional, iniciativas como Maritaca AI e Amazônia IA mostram que o Brasil quer deixar de ser apenas usuário para se tornar protagonista em inteligência artificial

Ferramentas como ChatGPT, Claude, Copilot e Gemini dominam o debate global sobre chatbots de inteligência artificial (IA) e concentram milhões de usuários, mas o Brasil também tem desenvolvido alternativas próprias, voltadas à sua realidade. 

Esse avanço carrega implicações estratégicas, já que grande parte dos modelos internacionais é treinada com dados predominantemente em inglês, o que limita sua precisão ao lidar com temas brasileiros, especialmente quando envolvem regionalismos, cultura e contexto social. 

Como exemplo, o professor Fernando Osório, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, cita inconsistências já observadas em respostas sobre política brasileira. Em versões anteriores, com bases de dados atualizadas até 2021, sistemas chegaram a afirmar que o presidente do Brasil ainda era Jair Bolsonaro. Em outro caso, ao combinar IA com buscas na internet, uma ferramenta indicou corretamente o nome de Luiz Inácio Lula da Silva, mas exibiu uma imagem incorreta, associada ao ex-presidente.

Membro do comitê gestor do Centro de Inteligência Artificial da USP (C4AI), o docente alega que situações como essas evidenciam os limites de modelos treinados fora do contexto nacional. “Quando o sistema não tem uma base sólida de dados locais, ele pode misturar informações ou apresentar respostas inconsistentes, o que compromete a confiabilidade em aplicações mais sensíveis”, conclui.

De acordo com o pesquisador, o C4AI tem discutido o papel do Brasil nesse cenário, especialmente diante do debate crescente sobre a propriedade e o uso de dados. “Hoje se discute de quem são esses dados e como eles podem ser utilizados. O país precisa se posicionar”, afirma. Segundo ele, o centro também tem atuado no desenvolvimento de novos modelos, buscando soluções que considerem as especificidades brasileiras. 

Para a professora Solange Rezende, coordenadora do MBA em IA  e BigData do ICMC, desenvolver inteligência artificial no Brasil passa diretamente por uma questão de soberania tecnológica. “Quando criamos nossas próprias soluções, conseguimos ter mais controle sobre os dados, reduzimos a dependência externa e construímos sistemas que realmente fazem sentido para a nossa realidade”, ressalta.

Conheça alguns chatbots brasileiros

Maritaca AI

O chatbot da MaritacaAI pode ser acessado gratuitamente, com opções mais avançadas a partir de R$ 59,90 | Imagem: Reprodução do site 

Considerada uma das pioneiras no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem no Brasil, a empresa Maritaca AI foi fundada em 2022 por Rodrigo Nogueira, engenheiro e cientista da computação, junto com pesquisadores do núcleo de estudos em inteligência artificial da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2023, a empresa lançou o Sabiá-2, um modelo em português treinado com dados mais próximos da realidade brasileira. De acordo com especialistas da área, o sistema tem apresentado bom desempenho em tarefas como geração de texto, interpretação de perguntas complexas e até resolução de provas nacionais, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). 

A empresa também desenvolveu o MariTalk, interface de conversação baseada no Sabiá-2, lançada em março de 2024 e considerada um dos primeiros modelos de linguagem de grande porte especializados em português. O desenvolvimento da Maritaca AI só foi possível, segundo Rodrigo, porque a empresa recebeu um aporte de US$ 1 milhão do Google, o que impulsionou o avanço de suas pesquisas. 

Durante a palestra “Um panorama da IA Generativa no Brasil e no Mundo”, do ciclo de palestras de Tendências e Mercado em IA e BigData do MBA em Inteligência Artificial e Big Data do ICMC/USP, Rodrigo destacou que a plataforma JusBrasil utiliza os modelos da Maritaca para explicar termos jurídicos complexos para leigos, atendendo 25 milhões de brasileiros mensalmente.  

“Eles utilizavam soluções da OpenAI e migraram para a nossa tecnologia, o que nos dá muito orgulho. Ter casos como esse, em que uma empresa adota, em escala, uma solução nacional, mostra que é possível desenvolver tecnologia competitiva no Brasil”, ressalta.

Amazônia IA

A Amazônia IA é totalmente gratuita, mas a empresa desenvolvedora pretende disponibilizar planos pagos com funcionalidades extras no futuro | Imagem: Reprodução site

Diferentemente de iniciativas centradas apenas em desempenho computacional, a proposta incorpora dados que representam a diversidade brasileira, incluindo aspectos ambientais, sociais e culturais da região amazônica. Desenvolvida pela empresa WideLabs, em parceria com a Oracle e a NVIDIA, a Amazônia IA foi lançada em 30 de julho de 2024. O projeto busca compreender contextos específicos do país e  tem como principais áreas de atuação os setores jurídico, educacional, cultural, saúde, segurança e marketing. Como diferencial, a WideLabs garante que desenvolveu a IA usando energia limpa e renovável , impactando minimamente a natureza.

SoberanIA

A ferramenta SoberanIA foi projetada para evitar vieses e posicionamentos ideológicos | Imagem: Reprodução site

Desenvolvida pelo governo do Piauí, a ferramenta de inteligência artificial busca melhorar os serviços públicos e otimizar pesquisas científicas com um banco de dados 100% brasileiro. A tecnologia reforça a importância de incluir sotaques, expressões e variações linguísticas no desenvolvimento de sistemas de IA. O projeto foi lançado em 2025, mas o chatbot ainda não está disponível para o público. 

Esse conjunto de projetos dialoga diretamente com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado pelo governo brasileiro em 2024 e que promete investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. Entre os objetivos do documento estão o incentivo ao desenvolvimento de tecnologias alinhadas às necessidades nacionais e a formação de mão de obra qualificada, além do fortalecimento da pesquisa na área. 

Nesse contexto, programas como o MBA em Inteligência Artificial e Big Data do ICMC ganham relevância ao formar especialistas capazes de atuar tanto no desenvolvimento quanto na aplicação dessas tecnologias.

As inscrições para a 6ª turma ainda estão abertas. Inscreva-se até 13 de maio! 

Matéria: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica