Dos jornais impressos aos bastidores da IA: conheça o professor Júlio Cezar Estrella, que ensina o que faz a tecnologia funcionar

Docente no MBA em IA e Big Data, Júlio transforma a curiosidade sobre o funcionamento das coisas em pesquisas sobre infraestrutura, dados e tecnologia

Antes da popularização da internet, eram os jornais de papel que abriam as janelas  para o mundo. E foi folheando um caderno de profissões da Folha de S. Paulo, na década de 1990, que o então adolescente Júlio Cezar Estrella projetou o que poderia fazer do seu futuro. Hoje docente do MBA em IA e Big Data do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC-USP), Júlio  se graduou em Ciência da Computação na Unesp, campus de São José do Rio Preto, cidade a 140 quilômetros de Sales, onde ele  nasceu e cresceu.

Sem acesso a muitos recursos na cidade de 6 mil habitantes, Júlio lembra que o jornal o ajudava a investigar o porquê das coisas, algo que mais tarde canalizou para sua carreira na computação. Dentro desse universo, a educação tinha um papel importante. “Meu pai enfrentou grandes dificuldades para concluir a graduação em Física. Por isso ele incentivava: ‘Olha, vai estudar’. Algo que ficou gravado na minha mentalidade”, relata.

Na graduação na Unesp, viveu uma rotina dedicada quase integralmente aos estudos, o que considera ter sido um privilégio.  E desde do início, o professor já demonstrava curiosidade pelos bastidores da tecnologia. “Eu queria compreender os mecanismos invisíveis por trás de cada sistema”, conta o docente do MBA.

A escolha definitiva

Ao concluir a graduação, Julio chegou a trabalhar por um período em um banco, buscando a estabilidade profissional. Mas logo retomou o desejo de investir na vida acadêmica, algo que ele credita ao ambiente em que foi criado. “Meu pai foi uma referência para gerações de estudantes de Sales e, anos depois, teve seu nome eternizado em uma escola de educação infantil do município. Ele sempre acreditou muito no poder da educação”, afirma.

Foi nesse contexto que surgiu o ICMC. Influenciado pelas referências que ouvia de antigos docentes da Unesp sobre o Instituto, decidiu prestar o processo seletivo para o mestrado em São Carlos. Na época, ingressar no programa era bastante concorrido. Ao lado de colegas de Rio Preto, que também foram aprovados no processo seletivo, montou uma república e iniciou uma fase que atravessaria os seis anos seguintes entre mestrado e doutorado. “Fiquei um ano sem bolsa de estudos. O caminho não foi fácil, mas eu acreditava muito no que estava fazendo”, diz. 

Foi também no ICMC que encontrou a área que definiria boa parte de sua atuação científica. Júlio ingressou no grupo de Sistemas Distribuídos e Programação Concorrente, laboratório que hoje coordena. Em uma época marcada pela expansão da internet, passou a se dedicar à infraestrutura computacional, área que sustenta o funcionamento de redes, armazenamento, processamento e circulação de dados.

Embora pouco visível para quem utiliza a tecnologia no dia a dia, é justamente essa infraestrutura que permite que sistemas, aplicativos e plataformas funcionem. “As pessoas usam os recursos, mas geralmente não fazem ideia de como tudo acontece nos bastidores”, comenta.

Durante o doutorado, teve as primeiras experiências internacionais da carreira acadêmica. Participou de congressos em Portugal, Itália e Estados Unidos, algo que considera um divisor de águas em sua trajetória. “Naquela época, interagir com pesquisadores de outros países era muito mais difícil do que hoje, quando ferramentas como de videoconferência não faziam parte ainda da nossa realidade. Por isso, essas experiências internacionais foram muito importantes, pois ampliaram minha visão de mundo e de pesquisa”, relembra.

Além da participação em eventos científicos, as viagens internacionais proporcionaram a Julio novas experiências culturais, ampliando sua visão de mundo e de pesquisa | Crédito da imagem: Arquivo pessoal 

Superando desafios

E quis o destino que, em um momento crucial de sua carreira, o professor Júlio perdesse aquele que era seu maior incentivador. Em razão do falecimento do pai, em 2010, o docente precisou antecipar etapas do concurso para se tornar docente do ICMC. Com a dor da perda, veio a alegria da aprovação e, logo em seguida, o casamento. “Me casei um mês após a aprovação. Foi um período de intensas emoções”, destaca.

Recentemente, Júlio assumiu a direção do Centro de Tecnologia de Informação de São Carlos (CETI-SC), passando a coordenar parte da infraestrutura computacional do campus. Mas, além da gestão, ele é apaixonado por ensino, pesquisa e extensão. Uma das frentes de pesquisa envolve soluções voltadas ao monitoramento de conforto térmico e eficiência energética em ambientes universitários. Para o professor, a possibilidade de resolver problemas reais continua sendo sua maior motivação profissional. “A academia no Brasil ainda é muito afastada da vida real. O setor público está cheio de problemas complexos que precisam de resposta, enquanto a universidade produz conhecimento o tempo todo. Nosso grande desafio é transformar essa teoria em soluções que cheguem, de fato, à sociedade”, avalia. 

No MBA em IA e Big Data, Júlio leciona a disciplina de Infraestrutura e Segurança de Dados, demonstrando aos alunos justamente aquilo que costuma passar despercebido quando se fala em inteligência artificial (IA) e dados. “Muita gente trabalha com dados sem pensar em tudo o que existe por trás deles. Alguém coletou, armazenou, processou e disponibilizou essas informações”.

Segundo o professor,  o profissional de destaque no futuro não será aquele com conhecimento puramente mecânico, mas sim aquele que possuir uma visão sistêmica e analítica. Isso significa compreender o contexto e a infraestrutura que permitem que ferramentas como a IA Generativa funcionem em cima dos volumes massivos de dados produzidos pela sociedade. “Acho que esse é um dos diferenciais do MBA em IA e Big Data do ICMC, ou seja, fazer os profissionais olharem para a tecnologia de forma menos automática e imediatista”, avalia.

Com o ritmo de vida bastante ocupado pelos afazeres profissionais, o professor gosta de, no tempo livre, curtir a esposa e os dois filhos: uma criança de 10 e outra de 7 anos. Além disso, Júlio ainda encontra tempo para um hobbie que não sai muito da sua realidade. “Eu não consigo ficar parado. Em casa, gosto de ficar mexendo em instalações elétricas”, assegura.

Matéria: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica