Celeiro de talentos do futebol e de estudantes que se destacam em vestibulares e olimpíadas de conhecimento, o Ceará também viu nascer um pesquisador que ajuda a formar profissionais em uma área estratégica: a ciência de dados. Em Fortaleza, muito antes de se tornar professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e docente do MBA em Inteligência Artificial e Big Data do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, Ângelo Brayner chegou a atuar por cinco anos como centroavante das categorias de base do Ceará Sporting Club. Talentoso com a bola, ele acabou deixando essa possibilidade de carreira para apostar nos estudos. “Na minha família, o estudo era visto como a principal forma de superar as dificuldades impostas pela realidade do Nordeste e “conseguir algo na vida”, então acabei decidindo prestar vestibular”, conta o docente.
Influenciado por um primo que atuava na área, Ângelo começou no curso de Engenharia Civil na Universidade Federal do Ceará (UFC). No entanto, depois de um ano, resolveu mudar para Ciência da Computação, já que a graduação conciliava com seu interesse por tecnologias. Na UFC, o professor participou do movimento estudantil, que rendeu sua primeira vivência na área. “Conheci a Maria Luiza Fontenelle, que foi a primeira mulher eleita em 1985 para a Prefeitura de Fortaleza através do movimento estudantil. Quando ela se elegeu, me convidou para o cargo de diretor do Centro de Processamento de Dados na Secretaria de Finanças e Tecnologia na Prefeitura de Fortaleza”, conta.
A experiência durou três anos e, segundo Ângelo, foi um período de grandes aprendizados já que a tecnologia da informação estava nos estágios iniciais dentro da autarquia. “Os sistemas de arrecadação eram críticos para a cidade e aquilo representou um enorme desafio, mas me conferiu uma grande vivência profissional e pessoal”, destaca.
Pensando na segurança e na estabilidade proporcionada por um concurso público, o professor apostou no setor bancário. Atuou como administrador de Banco de Dados, primeiro no extinto Banco do Estado do Ceará e, posteriormente, no Banco do Nordeste. “Essa experiência foi importante porque me deu muita vivência do mundo real e quando eu vou ensinar meus alunos sobre conceitos do banco de dados, explico por um viés mais prático”, ressalta Ângelo.
O caminho da pesquisa
Encaminhado na carreira, o docente sentia que o trabalho no mercado financeiro era limitado, com pouco espaço para a criação de algo novo. Esse incômodo, aliado ao gosto pela pesquisa acadêmica, acabou motivando-o a buscar uma vaga de mestrado. Apesar de passar na seleção de outras duas universidades, inclusive mais próximas à Fortaleza, Ângelo optou pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A escolha decorreu da vontade de ser orientado pela professora Cláudia Bauzer Medeiros, até hoje uma referência na área. Apesar do choque cultural inicial e das dificuldades financeiras marcadas pelo atraso constante das bolsas de estudo, o professor do MBA em IA e Big Data descreve o período em que residiu na cidade paulista como maravilhoso. “A Unicamp foi uma segunda casa, todo mundo se ajudava. Fiz excelentes amizades lá”.
Destemido, o pesquisador voou mais longe em busca do seu doutorado, destravando não só as barreiras culturais, como também uma nova língua e um clima que não se aproximava em nada do calor cearense. Ao lado da esposa, que também realizava doutorado, e com dois filhos pequenos, Brayner mudou-se para a Alemanha. Mais do que os conhecimentos técnicos, foi na Universität Kaiserslautern que ele aprendeu uma das lições que mais influenciaram sua carreira acadêmica. “O que mais me marcou foi o rigor científico. Aprendi que uma crítica a um trabalho não é uma crítica ao pesquisador. É uma forma de melhorar a pesquisa. Esse rigor e essa objetividade moldaram minha visão sobre fazer ciência”, diz.
Anos depois, o pesquisador ainda realizaria um pós-doutorado na Universidade de Alberta, no Canadá, ampliando ainda mais sua visão internacional sobre pesquisa e inovação.

Formando cientistas de dados
Além de ser docente da UFC desde 2000, Ângelo tem entre suas contribuições mais relevantes a elaboração das referências curriculares para os cursos de Ciência de Dados. O projeto, da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), ocorreu durante a pandemia de Covid-19, em um momento em que cursos com essa denominação se multiplicavam pelo país. “Existia uma preocupação muito grande com a qualidade da formação oferecida. Precisávamos construir uma referência nacional”, revela.
Brayner também participou da criação do curso de Ciência de Dados da UFC, do qual se tornou o primeiro coordenador. “Foi uma forma de garantir que aquilo que defendemos nos referenciais curriculares realmente fosse implementado”, relata.
Ângelo também se preocupa com os desafios da computação, entre eles, o crescimento exponencial do volume de dados gerados diariamente, o avanço da computação quântica e as discussões sobre soberania digital. “Cada vez mais dependemos de um pequeno grupo de empresas para armazenar e processar informações. Essa é uma discussão tecnológica, mas também estratégica para os países”, avalia.
No MBA em Inteligência Artificial e Big Data do ICMC-USP, Brayner traz essas discussões na disciplina Engenharia de Dados. Para ele, um dos diferenciais da formação é a preocupação constante em oferecer aulas práticas e seminários que abordem as perspectivas do mercado. “O corpo docente reúne pesquisadores reconhecidos nacionalmente e internacionalmente. Além disso, a organização e a infraestrutura do curso são excelentes e a equipe se preocupa com os discentes, com a evolução do seu aprendizado”, ressalta.
Fora da universidade, Brayner continua encontrando tempo para outras paixões. A música clássica ocupa um lugar especial em sua rotina, especialmente a Nona Sinfonia de Beethoven, assim como os encontros familiares de sábado, tradição mantida desde a infância. Além disso, o docente viaja à Austrália quando pode para ver as netas e a filha, que se tornou professora na Deakin University. O outro filho, chamado Pedro, que é um advogado de renome nacional e foi um dos precursores do Direito Cultural no Brasil, também é seu orgulho. “As pesquisas da minha filha na área de genética têm grande visibilidade na Austrália e meu filho advoga para a atual Ministra da Cultura”, observa envaidecido.
Quanto ao futebol, o professor garante que continua torcendo pelo Ceará, embora não acompanhe os jogos tão de perto como antes. Sobre a Copa do Mundo, que acontece na América do Norte, ele diz: “Não tenho grandes expectativas. Acho que atualmente o futebol se tornou muito mercantilista, não tem a arte e a paixão de antigamente”.

Matéria: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica

