Marcela Mattiuzzo corre, faz musculação, pratica pole dance e é tutora do pastor australiano Caju e do golden retriever Luke. No restante do tempo, a doutora pela USP e sócia do VMCA Advogados dedica-se a compreender como leis e regulações podem acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas provocadas pela inteligência artificial (IA) e pelo uso massivo de dados.
É por isso que ela é a responsável pelo módulo de Governança de Dados e Aspectos Regulatórios no MBA em IA e Big Data do ICMC-USP. No início, os alunos de exatas estranham a presença de uma professora de Direito. Mas o choque dura pouco e, ao final, eles querem se aprofundar mais. “Meu objetivo não é formar especialistas em legislação. Quero sensibilizar os alunos para que compreendam as exigências regulatórias e consigam desenvolver produtos, serviços e soluções que dialoguem adequadamente com as exigências regulatórias”, explica.
Mas, até chegar à docência, Marcela construiu uma carreira desenhada na velocidade da transformação digital e cuja origem está em Itatiba, no interior paulista. Filha de uma professora de educação especial e de um engenheiro, ela lia a saga O Senhor dos Anéis, livro que se tornaria seu favorito, e sonhava em se mudar para a capital. Não porque rejeitava sua cidade natal, mas porque enxergava em São Paulo um universo para explorar, conhecer pessoas diferentes e ter acesso a oportunidades que sentia não encontrar no interior.
Ao ingressar na Faculdade de Direito da USP, mudou-se para São Paulo e iniciou um período de descobertas que redefiniram sua trajetória profissional. “Eu via o Direito como uma área que me dava muitas possibilidades. Gostava das ciências humanas, mas ainda não sabia exatamente o que queria fazer profissionalmente. Era uma forma de manter caminhos abertos”, conta.

Quando tecnologia e Direito se encontraram
Como acontece com muitos estudantes, Marcela levou algum tempo para encontrar os temas que realmente despertavam sua curiosidade. O primeiro clique veio na Escola de Formação da Sociedade Brasileira de Direito Público (SBDP), onde ela mergulhou na produção científica e na análise de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). “Era uma época em que o STF não tinha a visibilidade pública de hoje, mas eles já discutiam questões cruciais”, relembra.
O divisor de águas, porém, veio na disciplina de Direito Concorrencial, ministrada pela professora Paula Forgioni. Ali, Marcela se encantou pelo nó que amarra mercados, economia e regulação. Pouco depois, em um escritório especializado, ela estagiou em um dos primeiros grandes casos envolvendo tecnologia e concorrência no Brasil, uma investigação que mirava o Google. “Eu já gostava de tecnologia como usuária, curtia a internet e as ferramentas digitais. Quando vi que existiam discussões jurídicas profundas sobre esses mercados, fiquei fascinada”, conta.
Ainda na graduação, uma bolsa de mérito acadêmico abriu as portas para um intercâmbio na Universidade de Zurique, na Suíça, consolidando sua vocação para a pesquisa. No retorno ao Brasil, ela lembra que viveu uma das experiências mais singulares da sua formação. “Fiz um estágio de pesquisa na FGV com um professor norte-americano, que não falava uma palavra de português. Então, além de auxiliar nas atividades acadêmicas, virei a guia dele por São Paulo. Levei ele até o posto de saúde para tomar vacina”, diverte-se.
Graduada, arrumou as malas e mudou-se para Brasília para assumir como chefe de gabinete da presidência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). A imersão no setor público foi o teste de fogo para entender como o Estado busca responder aos desafios impostos pelo avanço tecnológico. “Você passa a compreender os desafios da administração pública por dentro, a complexidade de cada decisão e o equilíbrio delicado que exige uma política pública”, avalia.
Com o fim do mandato no CADE, o passo seguinte foi o mestrado na USP, onde Marcela decidiu investigar discriminação algorítmica. No meio do caminho, foi aprovada para ser pesquisadora visitante na prestigiosa Faculdade de Direito de Yale, nos Estados Unidos. Lá, a convivência diária com cientistas da computação, economistas e cientistas sociais trouxe a convicção de que os grandes desafios tecnológicos exigem um olhar transdisciplinar.
No doutorado, voltou-se ao Direito Comercial, acompanhando de perto a evolução das discussões sobre tecnologia, inovação e regulação no Brasil. “Estamos tentando entender como regular tecnologias que continuam mudando rapidamente. Existe um equilíbrio delicado entre incentivar a inovação e criar regras que protejam direitos e reduzam riscos”.

Formar profissionais que façam as perguntas certas
No MBA em IA e Big Data do ICMC-USP, Marcela é responsável pelo módulo voltado à governança de dados e aspectos regulatórios relacionados à tecnologia. Segundo ela, os alunos a princípio estranham ter uma docente de Direito, mas logo entendem que seu papel ali é ajudá-los a identificar questões importantes. “Meu objetivo não é formar especialistas em legislação. Quero sensibilizar os alunos para que compreendam as exigências regulatórias e consigam desenvolver produtos, serviços e soluções que dialoguem adequadamente com essas questões”, explica Marcela.
Marcela divide o módulo com o professor Javam Machado, que complementa a disciplina ao apresentar as soluções técnicas para desafios discutidos sob a ótica regulatória, como a anonimização de bases de dados. “O corpo de legislações que tratam a questão de governança de dados de maneira ampla, tem crescido. Então, tem sido cada vez mais comum que os alunos tragam dúvidas sobre temas diversos relacionados à governança de dados”, declara a professora.
Em perspectiva
Ao olhar para trás, Marcela se orgulha de uma trajetória construída pela disposição de explorar oportunidades, assumir riscos e seguir temas nos quais acreditava. Por isso, o conselho que daria à adolescente que sonhava deixar o interior paulista continua atual. “Tente fazer coisas nas quais você acredita. Nem tudo vai dar certo, mas mesmo quando parece que algo deu errado, muitas vezes aquilo acaba levando você para um lugar importante”, declara.
Matéria: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica

